Que tristes os caminhos, se não fora a mágica presença das estrelas.
( Mário Quintana)

sábado, 20 de agosto de 2011

Memória

Ás vezes você se perde pensando tentando resgatar um momento da sua vida que te deixou feliz. Ás vezes a lembrança é traidora e aumenta mais do que deveria ser, te deixa confusa, saudosa. Porque a memória tem câmera lenta, luz especial, imagem em alta definição, e todo tipo de efeito, só pra você querer voltar naquele momento de qualquer jeito.  Aí você mergulha na cena, os seus olhos ficam vidrados, nada está sendo visto, tudo esta sendo pensado. Há ecos do lado de fora e dedos estalando nos seus ouvidos para tentar fazer você acordar, mas você nem liga. O único som que você realmente escuta está dentro de você mesmo, na sua cabeça. Sim, a realidade é aquela. E você tem o direito de se perder por lá. Você analisa os detalhes, ressaltando as cores, fazendo o instante, repetidas e repetidas vezes. De repente, o acontecido não basta e você resolve melhorar a cena. Isso. Você se torna o seu próprio diretor. “E se eu tivesse feito isso?”, “Se tivesse dito aquilo?”, “E se fosse noite ao invés de dia?”, você pensa, recriando tudo e deixando a cena ainda mais perfeita. Você se vê bonita, porque teve a melhor maquiagem que alguém poderia fazer. Ou então, você se vê confiante, pois trazia a certeza de que tudo iria ocorrer bem. E a cena finaliza impecável. Só que o seu coração não acelera como deveria. Nem você sente o sorriso de prazer e alívio brotar nos seus lábios porque deu tudo certo, você o sabia desde o início. E já não era a sua memória trabalhando, mas a sua imaginação.  Então você percebe que nada deveria ser mudado, porque a memória que você guardava já era feliz demais, talvez a mais feliz de todas. A imaginação está sempre criando e recriando tudo e você não pode impedi-la de fazer isso. Mas aquela memória, você vai querê-la imutável, para revivê-la sempre que tiver vontade de ser feliz outra vez. 



C. Sarah

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Só pra constar...


Abri o baú com as cartas que eu havia jurado estarem mortas há tanto tempo. As palavras estavam lá, manchadas e fracas, enquanto eu me desfazia num esforço inútil para tentar entendê-las. Os versos ainda rimavam tão tolos e decadentes, as sensações é que estavam erradas agora. O tempo faz coisas incríveis, perceptível ou imperceptivelmente. Palavras são só palavras quando tudo se vai e apenas elas ficam. No final das contas as cartas mortas viraram lembranças que já não me dizem mais nada.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Riso estéril


Gargalhos em meio a noite. Abraços perdidos no caos e os braços estão recolhidos. Tocam, mas não aconchegam. A vela tremula, faz sombra: são lábios tão cheios, macios. Vazios no fundo da alma. Vazio no copo de vinho.  

sábado, 12 de março de 2011

Insônia


 Os olhos circulam; o quarto, a paisagem; o escuro emoldura; a parede, a imagem. O teto encara; o relógio percorre; a aurora trepida; e a insônia não passa. A cama inverte; o lençol embola; o corpo se vira; a mente não pára. O vento acaba; o travesseiro impede; a pele transpira; a nuca empapa. O colchão endurece; os cabelos revoltam; as pernas descruzam; o braço adormece. O estômago embrulha; o pijama incomoda; lá fora é manhã, e a insônia só cresce.

C. Sarah

quinta-feira, 10 de março de 2011

Desfecho

Tão lindas eram as rosas brancas que adornavam seus cabelos pálidos. Olhava-a como quem admira uma arte. Uma mão segurava a dela, a outra traçava a face alva circulando-lhe olhos, testando a maciez das maçãs, contornando-lhe os lábios com uma imensa saudade. As horas passaram, as pessoas passaram e cautelosamente observaram a contemplação ali exposta. Só quando as velas foram acesas, iluminando a moldura de madeira, que se deu conta da branquidão de sua pele, uma estátua de mármore repousando em veludo vermelho. Fria, como o mármore. Logo, chegara a noite e tudo naquele recinto parecia ser feito de gelo. Mais um figurão compareceu cumprindo seu dever social, nem se dera conta de quantos já haviam aparecido. Em porcelana fina era servido o café. Uma mão lhe afagou o ombro oferecendo-lhe o que beber, mas recusou sem retirar o olhar do cetim derramado na sua frente. As memórias vagarosamente foram lhe cercando, um sorriso marfim, um olhar falante, um andar bailarino, coisas que a pertenciam. Altivez, ela também tinha isso. A mente ficou perdida por breves instantes nas lembranças, o murmurinho de vozes o desconcentrou e aí percebera que os rostos que o encaravam agora já não eram os mesmos da manhã. Também notara algo mais, não havia visto uma criança sequer. Claro. Ninguém traria uma criança para presenciar o fim de um anjo. E foi se concentrando em detalhes que não vira desde que entrara no local. Símbolos sacros, a cruz dourada com Jesus Cristo pregado nela lhe chamou atenção, também havia coroas de rosas, faixas, e mais velas. Agora enxergara melhor as pessoas e foi odiando cada uma das faces. Odiando os olhares, odiando os pesares, odiando a presença. E num acesso de puro ódio expulsou a todos, atirou os arranjos, apagou as velas até restar somente a ele, a defunta e a escuridão. Ninguém lhe roubaria aquele momento. O breu foi consumindo o quarto e apenas um feixe vindo da janela aberta iluminava, clareando só o corpo deitado. Por vezes o vento adentrava e balançava a mortalha jogada numa cadeira, era o único movimento visto. O preto passou a cinza e a madrugada foi mais sombria do que a noite. A beleza já estava se esvaindo, a pele ficando arroxeada embaixo dos olhos, e assim como as flores ela parecia mais murcha. A dor apertou seu peito por saber que os vermes a tocariam e a terra a preencheria. Três batidas fracas soaram na porta, não era a morte que viera buscá-lo como pedira, era a hora dela partir. Pedira ao Deus Cristão que o levasse, pedira a tantos deuses, demandou até ao diabo e arrependeu-se na mesma hora. Não era para o inferno que ela iria, mesmo se ele existisse, ela não iria para nenhum lugar ruim. Caronte a daria o melhor lugar na barca. Hades jamais deixaria sua alma vagar nos campos da danação. Ela não esperaria no purgatório. Se tudo isso fosse verdade... Se ele pudesse trazê-la de volta... Se pudesse trocar sua vida pela dela... Mas o que lhe sobrou não foi vida, não suportaria a vida sem ela, e egoisticamente, não suportaria a vida dela sem a sua própria. Uma troca não seria o bastante. Queria ir com ela ao céu, queria ir com ela ao inferno. Queria-a, e só. Assim como os irmãos Castor e Polúx, desejaria a vida no Olímpo, e a suportaria no submundo, se junto dela estivesse, e ficaria satisfeito. A mortalha foi colocada, as alças douradas suspensas, duas fileiras de homens vestidos de preto a carregavam. Véus e mantos de graúnas acompanhavam o desfecho.  O caminho foi curto. O padre foi breve. Não houve choro, não houve discurso. Ele somente observou o movimento do caixão sendo abaixado na profundidade. E mesmo doendo-lhe segurou a pá e sujou a madeira branca esperando que a terra tomasse conta daquele corpo que um dia lhe pertencera.  

C. Sarah   
                                          

segunda-feira, 7 de março de 2011

Memórias de Ícaro



Minha prisão ficou pequena, construção extraordinária para mim não destinada. E que armadilha o destino teceu, a obra incorporou o artista. E eu acabei, também, por me tornar monumento desses becos escuros de saídas incertas, onde o céu, o teto, era o único escape. Mas agora que tenho um imenso azul sob meus pés, agora que aposto corrida com uma gaivota, deixo um rei enfurecido e essas lembranças para trás. Vou me misturando no alvo algodão e respiro mais forte um ar diferente. Eu sinto o vento pressionando meu corpo e de braços abertos o deixo abraçar-me. Outro azul preenche a minha volta e são tantas as formas tingidas de branco, me perco dançando buscando o calor do Sol infantil que brinca de esconder. Eu subo mais alto e tento encontrá-lo juntando-me a ele na brincadeira. Os sonhos que outrora havia eu sonhado parecem tão tolos nessa comparação. Um aviso me cerca: não posso ir tão longe ou minha armadura se desfará. Mas raios de sol, fios de ouro, prenderam-se a mim em força corrente puxando meu peso para acima das nuvens. Tudo era belo, prazeroso até, então o calor tornou-se intenso e a pele queimou contra a armação. Em um segundo não havia mais nada apenas o vento empurrando meu corpo, só que desta vez não tinha abraço nem amarras de fios pra me segurar. Eu fui despencando, cortando o azul, furando o algodão, tão livre do que jamais tivera em sonho. No peito um tambor rachava as costelas enquanto os meus membros agarravam o nada. Ao longe avistei os olhos do artista que me sustentavam mesmo sem poder. E eu desisti correndo para os braços daquele gigante de azuis infinitos para em suas águas meu sonho acabar. 


sexta-feira, 4 de março de 2011

Profecias de Cassandra



Apaixonado e não correspondido o Sol a amaldiçoou. O dom do prenúncio, oráculo acertado, se fez falácia quando nulo tornou-se o dom da persuasão. O Deus ressentido pelo amor regado lançou sobre Cassandra o descrédito que abalava a confiança tida em suas profecias. Dos seus lábios as palavras proferidas verdadeiras eram, mas se ouvidas jamais cridas. Infeliz foi o destino desta sorte, e assim o daqueles que não puseram fé nos presságios alertados. Tróia ruiu em tragédia lastimável. Páris, o irmão, o responsável. Agamenon foi avisado da tramóia organizada no intuito do seu fim, e como sempre, o resultado era esperado, o assassinato consumou-se pelas mãos da esposa infiel. Apolo, deus vingativo, fez em Cassandra terrível desgraça, ás vezes a verdade por todos desacreditada fere mais do que uma mentira tida verídica

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Elmo de sangue

Fumaça no vale. Quietude. O grito de guerra ecoa presente na memória dos vencedores que andam por entre as pilhas humanas procurando os rostos amigos. Sobreviventes, mutilados, e mortos. Esses são os merecedores das condecorações de honra e glória atreladas ao campo de batalha. Recolhem o aço, nos braços o escudo, e pulam as poças. Olhai que nem houve chuva, apenas trovões. Mas tudo cessou. Nika! Nika!Vitória. A cavalaria se retira deixando pra trás a carnificina inimiga. Mais tarde os derrotados virão buscar seus mortos antes que as aves negras providenciem destino melhor. Sai o mensageiro a galope adiantado, reportará a notícia: Nika. A viagem é longa, os feridos são muitos, e alguns cravarão suas cruzes no caminho para casa. Outros, os velhos, beberão do vinho e ficarão para trás. Todos, porém, heróis, dignos soldados. Quanto mais maculada a morte, mais coragem e mais respeito. Decapitação. Honra. Espada no peito. Glória. Aproximada a caravana, as crianças se agitam e correm para avisar as mães, esposas e filhas que buscam as faces esperadas. É tão fácil enxergar o reconhecimento como, também, a dor abafada pelo sentimento de vitória, quando a perda é o seu real sentir. O elmo é entregue nas mãos da família, troféu sangrento do homem algoz que morreu vencedor.          

C. Sarah

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Relógio na ilha de Calypso



Tranças com fitas coloridas desenham o rostinho de menina moça de Sofia. Na cabeça dela sábios sofismas martelam as idéias que fluem para o coração quebrado porque Sofia se apaixonou. A pobrezinha precocemente sentiu o encanto e o desengano das hiperbolias que se reconhece no primeiro amor. A jovem Sofia maldiz o tempo e sofre com o medo de nada passar. Era tão doce, tão puro, eterno, e mesmo assim teve final. Não pra Sofia, que agora chora, soluça e declara que nunca mais virá a amar. Ela lembrara os dias atrás quando as horas injustas passavam num triz, e ao ver o relógio na sua frente, onde os ponteiros tão lentamente percorrem sua rota, se desespera.  O tempo é incerto, um dia, uma hora, quem sabe demora um pouco mais. Mas pra Sofia tudo é intenso, o tempo imenso e por acaso pareceu parar.      
 

C. Sarah

* Calypso ,segundo a mitologia, foi aprisionada na ilha de Ogygia por ficar contra o seu pai, Atlas. Lá o tempo era totalmente relativo. Semanas poderiam ser apenas um dia em outro lugar, ou o inverso. O castigo de Calypso era a solidão, mas ás vezes, passados uns mil anos, algum herói era mandado para que ela o ajudasse. Calipso lhe oferecia a imortalidade em troca da companhia eterna. Porém, nunca o herói aceitava a proposta de morar na ilha das horas incertas e ela sempre ficava sozinha chorando a desilusão.



quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Vestido azul


Ele toca sua pele tão delicadamente que a suavidade os faz parecer um só. Cai sob suas curvas apreciando o que há de mais belo e tentador. A pele nua e macia que fica aparente arranca suspiros, sugere delírios e a deixa com um ar de satisfação. Qualquer movimento simula uma dança e há sincronia em câmera lenta até que o mundo de repente pára. A mão escorre pela silhueta,textura sedosa, e o espelho reflete aquilo que os olhos sozinhos não captam. A face cálida e um pouco atrevida esboça um riso que sai bem contido pela beleza observada. Chegada a hora ela se vai trajando o vestido azul ,cor da noite, que é para com ele se perder na escuridão.


C. Sarah

Realidade


Bela com os cabelos reluzentes, prata da lua, deitava-se em seu leito escolhendo o cavaleiro dourado que iria povoar o sonho de hoje. Os cachos repousavam docemente no travesseiro, uma moldura emaranhada contornando o delicado rosto. Era assim todos dias, antes de dormir programava seus sonhos como quem escrevia o script para um grande espetáculo. E sonhava a noite toda. Um baile de gala, fantasias e cores preenchendo o salão, pierrô e colombina finalmente em harmonia.  Um palco, ela, a bailarina, ele amortecendo seu vôo com um movimento tão suave que mais parecia uma caricia. Às vezes um castelo, e porque não? Sempre luxo e príncipes acompanhados de cavalos alados, verdadeiros símbolos de um conto de fadas. Por isso não gostava do dia, já que eram as noites que lhe proporcionavam tamanho prazer e felicidade através de seus sonhos. Acordava extasiada com a aventura platônica e cada lembrança não vivida superava a outra. Certo dia, enquanto espreitava pela janela a monotonia do lado de fora do seu mundo, avistou a coisa mais linda que já vira no plano real. Borboletas dançavam no ar rumo ás flores silvestres que coloriam a paisagem, borboletas sugavam o néctar magistralmente como se fossem donas daquele espaço e, ao mesmo tempo, com tanto respeito que a menina quase podia ouvir um pedido de permissão, borboletas voavam soltas trazendo vida, mesmo que pela natureza suas vidas não suportassem mais que breves dias, às vezes nem isso. E assim dançando com as borboletas, borboleteando entre as flores, ela foi passar o seu dia. Com olhos fechados, não para sonhar, mas para sentir o calor, sentir o frescor da manhã envolvendo-a, beijando-a, deixava a luz arranhar o rosto frágil. Nem a tarde com seus tons pastéis, mais tristes, fez com que ela perdesse o interesse no cenário. Quando as borboletas se dispersaram, junto com as cores, a bela mulher se recolheu, e tão cansada pela sensação de maravilha que lhe invadia adormeceu sem planejar seu sonho. E sonhou com um mundo tão feio e sofrido que lhe doía a carne. Não eram as rosas, mas a fome que aflorava e corroia as crianças, pura miséria. Via mãe, irmãs e filhas em seus corpos expostos enquanto moedas de ouro eram jogadas a sua volta por homens que não se pareciam em nada com aqueles de sonhos atrás. Aflição e nojo lhe possuiu quando andou pelas ruelas imundas e escuras, seu corpo em contato com a sujeira se curvando contra o frio. Só música de ébrios em mistura aos gritos de agonia compunha a trilha sonora. Onde estavam os seus príncipes e os tapetes que protegeriam seus pés da imundice? De repente sentiu desespero querendo muito que aquele sonho chegasse ao fim, mas sabendo que ele ainda não havia atingido o esperado clímax. Andando em seu pesadelo pela cidade fantasmagórica se deparou com uma idosa, pele e osso, cujas mãos postas de uma forma específica, a fez pensar que a velha estava pedindo esmola, porém ouvindo um múrmuro baixo se envergonhou ao perceber a oração. Logo se deu conta que estava na casa da idosa e ao lado do pequeno altar que a mulher montara havia um bebê, e ao lado deste um caixão onde jazia um homem com uma faca no peito. A idosa agora chorava no velório do filho e a criança berrava pela falta de alimentação. Era tudo realidade. E Vagando pelas trevas da cidade via vilões, via ladrões, e choro, tristeza e morte. Apenas deu graças a Deus ao acordar, percebendo que tudo que sonhara era real demais, e que os seus castelos e seus príncipes não poderiam competir com aquilo. E viveu o dia e viveu a noite.       
                                                                                                                                           C.Sarah

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A maldição de Atlas

Morando numa casinha humilde a pequena família de pai, mãe e filho, se reveza segurando o mundo nas costas. Não raramente a mãe adoece apanhando frieza na casa mal revestida. O pai já velho, quando sem emprego, ensina o filho a esmolar pela rua. E se por sorte arranja trabalho a fraqueza invade os ossos decrépitos, o mundo lhe pesa e arranca suas forças, restando a mãe a suportar o céu. O filho cresce, mas não tem estudo e sem instrução é duro viver. Enterra o pai, consola a mãe, e agora nas costas o mundo inteiro irá suspender.

C. Sarah

domingo, 30 de janeiro de 2011

O Segredo de Circe

Escondo-me atrás de poções e apanhador de sonhos e vejo a vida mais clara que um cristal. Escuto histórias de amor infindáveis, enxergo tragédias de sólido fim e prego um futuro em doces traçados. É pena que as rugas que rondam minh’alma são marcas do tempo que eu dediquei ás vidas passadas em minhas mãos. É pena que o olhar tão fundo, tão ávido, não tenha os olhos cálidos e febris. Quem dera eu ter o segredo de Circe. Quem dera uma ilha pra repousar e dormir. E apenas em tempos, cansados dos mares, visitantes mortais por lá ancorar. Bom vinho eu teria e fogo a aquecer as noites geladas quando os signos do zodíaco despontar no céu. E quando chegasse a hora mais certa sozinha estaria sob o esmero da lua, apenas esperando mais vida e mais força o mar me trazer.   

C. Sarah   

*Circe- na mitologia grega era uma feiticeira que aprisionava os heróis que aportavam em sua ilha, ela os transformavam em animais após lhes dar uma poção. A feiticeira mantinha sua beleza e força nesse feitiço. Circe era considerada a Deusa da Lua Nova, do amor físico, feitiçaria, encantamentos, sonhos precognitivos, maldições, vinganças, bruxaria, caldeirões.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Na rua


De pés descalços ela corre para escapar da chuva. Cabelos desgrenhados grudando no seu rosto assustado, sujeira escorrendo da sua roupa de chita, ao menos ficará limpa amanhã. Na trouxa embolada de pano nada mais do que uma maçã mordiscada ao qual achou numa lata de lixo. O Bicho, diria Bandeira. Moleca, Trombadinha, Piveta, diriam as pessoas normais. E ela apenas procurando um lugar seco, em paz, para saborear o seu jantar e dormir. Sorte de ser sozinha, e preocupar-se apenas com si mesma. Tão egoísta. Cata uns folhetos de uma loja e forra o local escolhido, luxo é quando dorme sobre o fofo do papelão. Deita-se e adormece olhando os pingos mancharem as luzes da cidade morta. Nem demora muito um carro passa rápido, é a polícia que acorda a garota com o barulho das sirenes. Nada com o que se preocupar, ela é o perigo lá fora. Ela é a vergonha lá fora. Ela, uma menina de rua.      

C. Sarah

CARTA SUICIDA N° 3


MORRER:
Deixar de viver; finar-se; falecer; perecer; extinguir-se; aniquilar-se; deixar de existir. São numerosos os eufemismos correntes e há curiosas expressões populares: apitar; bater a alcatra na terra ingrata; bater a bota ou bater as botas; bater a caçoleta; bater a canastra; bater a pacuera; bater com a cola na cerca; bater o pacau; bater o trinta-e-um; dar a alma a Deus; dar a alma ao criador; dar à casca; dar a espinha; dar a lonca; dar com o rabo na cerca [...] 
O que leva alguém a almejar sua própria morte?


                                                                                                                                             10 de agosto de 2010


Hoje eu abri os meus olhos e me fixei na rachadura do meu teto como faço todas as manhãs, e só então eu acordei.
Comi o meu café sem ter o privilégio do último desejo dos condenados à cadeira elétrica, me mantive na simplicidade. Fui ao banheiro mecanicamente e fiquei cinco minutos inteiros sentindo os pingos do chuveiro quase fechado martelando na minha cabeça. Aquele recinto era a minha China. Devagar enxuguei o rosto na toalha grossa pressionando até sentir-me asfixiada. Era pouco. Água ainda escorria pelo meu pescoço, envolvi o tecido em volta dele o máximo que pude e finalmente fiquei seca. Ao passar pelo espelho havia uma figura, mas eu nada vi, a não ser o reflexo da prateleira repleta de aspirinas pra dor e antidepressivos.  A prateleira traduzia o meu verdadeiro eu. Sem pensar peguei uma das caixinhas de remédios e a levei comigo até a cama. Abri a bula me dirigindo para a parte onde continha: EM CASO DE OVERDOSE. Os olhos foram cansando na medida em que se fixaram naquela rachadura outra vez, e aí eu os fechei pra sempre.  

C. Sarah

Carta suicida n° 1

10-08-10
Escrita numa folha de papel do meu caderno era a carta. Nós estávamos entediadas então decidimos escrever uma história. Naquele dia era pra gente criar um personagem, imaginar como ele era fisicamente e dar uma personalidade a ele. Não tinha ficado acordado que o personagem tinha que se parecer com a gente. A idéia era cada uma escrever uma carta para depois juntarmos as histórias e quem sabe sair alguma coisa legal. Foi ficando tarde e nós acabamos adormecendo antes de ler as cartas uma da outra. No dia seguinte ela simplesmente arrancou uma folha do meu caderno e me entregou dizendo se tratar de uma carta suicida.
Recordo-me que eu achei incrível. Uma carta suicida era perfeita para minha história. Eu não tenho por que mentir. Eu nem sequer cheguei a ler a carta, eu a perdi naquele mesmo dia. Eu deveria ter lido naquela hora, eu deveria ter lido quando ela a escreveu. O certo é que eu nunca vou saber o que estava contido ali. Eu poderia pedir para que ela me contasse, sim eu poderia. Eu faria isso se aquela carta suicida não fosse a carta suicida dela, e se ela não estivesse morta nesse momento.
Eu nunca saberei o motivo que a levou cometer esse ato. Antes de morrer ela apenas me assegurou que me ajudaria com a minha história. Eu nunca imaginei que o personagem pudesse ser ela.
Hoje fico imaginando o que teria acontecido se eu não tivesse perdido a carta. Talvez eu pudesse ter evitado a tragédia, vai saber. Eu não sei. Ela era a minha melhor amiga e eu não sei se a vida dela era vazia o bastante, ou se ela estava triste com algo. A única coisa que eu sei é que ela me deixou uma história e eu a perdi.

C. Sarah.  

O bosque (capítulo do livro " O sonho de sarah", interminado)


Eu estava no quintal de casa sentada á sombra de uma árvore alta. Havia em minhas mãos um livro, estava pronta para lê-lo, mas não compreendia o que continha ali. Símbolos e estranhos rabiscos em uma escrita particular. Tinha muita dificuldade em retirar o significado daquilo tudo. Meu cordão de rosa exalou um brilho fraco, levei a mão até ele e tudo começou a fazer sentido. Eu iniciava um rito com gestos e movimentos imprevisíveis ainda segurando o livro. Uma luz forte emergiu como um clarão dentro das sombras do bosque. Era um chamado que eu sentia a necessidade de seguir. Caminhei por entre as árvores e musgos que cresciam na terra úmida da floresta, já estava prestes a alcançar o lugar desejado, eu podia sentir a energia vibrando, me guiando.
Lá havia oito crianças vestidas igualmente de branco de mãos dadas, dispostas em um círculo, me aproximei lentamente e percebi que não se tratavam de crianças, eram mulheres com feições delicadas e infantis, todas incontestavelmente deslumbrantes e pálidas. Uma delas quebrou o círculo em um movimento para que eu me juntasse ao cenário. Eu peguei as mãos de Amélia e Lucy e voltei a fechar a corrente. Eu sabia o nome delas, elas eram de uma maneira estranhamente familiar pra mim. A energia passou por mim como eletricidade pura, percorrendo os meus braços e se dissipando por todo o meu corpo, a sensação de pequenos choques me atingindo era boa. Fechei os meus olhos e contemplei aquele momento místico, porém a escuridão chegou sem aviso ocupando cada feixe de luz que eu visualizava, me forçando a abrir os olhos. 
Quando fiz isso encontrei uma pessoa no centro do circulo vestida de forma diferente das mulheres que ali estavam. Arrepios escovaram as minhas costas.  Suas roupas eram extremamente normais, seu tamanho e corte de cabelo denunciavam se tratar de uma figura masculina. Ele estava ajoelhado com a cabeça voltada para baixo. Seu físico parecia ter sido um dia forte e musculoso diferentemente daquela circunstância onde a pele fina e escura se sobrepunha aos ossos visivelmente. Dor invadia aquela criatura. De repente, ouvi palavras sem sentido serem pronunciadas, e me dei conta de que o som também saía de mim. Que espécie de ritual era aquele? Um coro soou mais alto e o homem levantou sua cabeça.
Aquilo não poderia ser um homem, não um homem normal e vivo. Seu rosto mais parecia está entrando em decomposição instantânea. Então, eu reconheci aqueles olhos verdes cálidos e inebriantes. Não poderia ser a mesma pessoa. Eu só havia o visto uma vez e ainda o reconheceria em qualquer lugar. Olhos como aqueles nunca se esquecem. Mesmo assim, aquela outra figura da minha memória era saudável apesar de pálida, seu corpo parecia sólido e havia músculos fortes pelo modo como ele se movia, seus lábios eram vermelhos e convidativos e mesmo não tendo a oportunidade de ter visto, o seu sorriso prometia ser desconcertante. Essa criatura que se encontrava na minha frente sofrendo compulsivamente não possuía mais face, era um todo desconexo escurecido com buracos no que deveria ser sua boca, nariz e olhos, estes últimos sendo apagados cada vez mais. O homem se contorceu por mais um momento e o pó tomou o seu lugar.
Eu tentei me soltar das mulheres e caminhar na direção das cinzas, algo me prendia, uma força magnética incrivelmente poderosa. Eu tentei fugir para casa de onde eu havia saído, minha casa. Alguma coisa aconteceu no romper do círculo e vultos vestidos de negro povoaram a clareira. A roupa negra apenas contrastava com a pele branquíssima que se ressaltava a luz da lua cheia. Uma das figuras sombrias era o Pietro. Meu coração acelerou e eu corri o máximo que podia tendo um replay de uma noite assustadora. O caminho para minha casa estava maior do que o que eu havia percorrido quando atendi ao estranho chamado. Eu me encontrava perdida na escuridão do bosque, apenas sentindo que ele ainda estava me caçando com uma vontade incontrolável. Dessa vez, eu não teria escapatória. Meu pensamento vagou com essa definição de caçar e eu continuei correndo enquanto meditava. Eu tropecei em um tronco e dor jorrou da minha perna junto com um sangue vívido que sujava meu branco vestido, mesmo assim, eu não desisti da corrida. O pressentimento de que o que estava pra acontecer seria infinitamente pior do que aquele machucado me deu coragem para continuar. Algo ruim me atingiu mais forte e me lançou contra o chão enlameado. Aquela energia negra, malvada podia ser sentida com um toque, me fazendo tremer de medo, eu nunca havia sentido tanto a ânsia de me esconder. Ele me encarava com olhos inumanos sedentos por vingança e morte. Pietro não continha mais o aspecto sedutor da ultima vez, sua postura era a de um animal raivoso pronto para o ataque. Eu tentei me levantar e seus movimentos rápidos me nocautearam outra vez fazendo tiras no meu vestido longo e esvoaçante. Eu consegui me reerguer e levei a mão ao meu pescoço pronta para agir de alguma forma. As garras dele foram mais ágeis e agora o meu pulso sangrava também. Ele parecia comemorar interiormente cada corte e eu podia perceber a reação que lhe causava ver o fluido vermelho surgir. Meu corpo se configurava a personificação da dor, eu já estava bem próximo da inconsciência.  Algum movimento entre as trevas distraiu o monstro, eu não aproveitei para correr ficando apenas em silêncio extremo, minha mente era um nada tamanha a concentração que me apossava, levando a mão ao amuleto eu proferi uns versos. O poder me encontrou e o monstro se repeliu gritando de angústia e sofrimento. Ele cambaleou me atacando novamente apesar de parecer ter receio na aproximação, com a diminuição da velocidade dos seus movimentos eu tive tempo para arrancar um galho da árvore na qual eu fui arremessada, um carvalho talvez, estava muito escuro pra notar. Eu cravei a madeira em seu tronco, mas eu apenas imaginei ter feito isso, o demônio desapareceu.
Tudo estava acabado, eu já podia voltar para casa em segurança. Eu me certifiquei disso de uma forma inexplicável e dei as costas ao lugar onde sumiu o meu perseguidor. Um erro grave. Ele me envolveu em um abraço de correntes e as suas garras perfuram o meu estômago.

Um grito ecoou, mas era apenas uma prolongação de som na minha inconsciência.

Quando voltei a mim o garoto que eu esbarrei em Londres estava ao meu lado, um filho da noite, chorando pela minha morte.

C. Sarah

Histeria



Elas cansaram do dia quando o sol forte se tornou cinza e fez a vida desanimar. Buscaram no anoitecer libertação. Estavam dispostas caçando algo para desaguar angústias e lamúrias de uma rotina traiçoeira. Encontraram-se ainda nas primeiras horas da noite escura e abafada, de estranhos ares. Enquanto caminhavam na procura, a lua nova sequer foi notada pelas três jovens que dela se banhavam.
Pessoas passavam e olhavam-nas com olhos curiosos e cheios de aviso pelas ruas vibrantes. O porquê nunca foi questionado, já que a ânsia, de ter saciado o desejo, não abria espaço para maiores observações.
“Iniciava-se mais uma reunião da Sociedade Secreta”
“Seleta”. Uma delas corrigia.
Foram ao encontro da música. A música não veio.
Bradaram por poesia. A poesia não chegou.
Clamaram por companhia. Convidados cruéis negaram-se a atender o chamado.
Entristeceram de repente e se conformaram sozinhas a fazer poesia e música fluir. A entorpecencia que a pouca bebida proporcionava não era suficiente, ainda assim, gargalhadas ouviram-se arrancadas em meio à viagem sem rumo. Eram risos de escárnio pela noite náufraga a que foram conduzidas.
 Evocaram “Baco”, a outra face de “Dionísio”, o deus cultuado pela sociedade, inverossímil motivo para a reunião.  Culparam-no pelo infortúnio. Zombaram da sua influência. Insatisfeitas, desafiaram o deus do Olimpo.
Não sentiam a intensidade das palavras proferidas. E naquela noite as palavras insistiam desfrutar de vida própria, lançadas sem o menor esforço. Escolheram o 7 como número cabalístico da fraternidade, a forma justa de estabelecer o elo entre a profana humanidade de pecados capitais.  E mais gargalhadas soaram, soltas ao vento, como as palavras sem volta.
Havia uma descrente entre elas. Tão forte a sua sabedoria que seu modo mais eficaz para se manter segura foi manter-se também na ignorância. Ignorância calculada, frio escudo para a sensibilidade, alívio para a racionalidade.
 As outras não. Pensavam saber além, mas sentiam mais do que o pensamento podia saber. Ah Presunção... armadilha previsível para o verdadeiro conhecimento. E todas brincaram como se deusas fossem por uma noite.
Decidiram retornar as suas habitações, mas não era tão tarde. Andaram nas ruas, divertiram-se desgostosamente, e no meio do caminho pararam para conseguir comida. Um banco esperava solitário na rua já sem movimento. Sentaram-se. A música foi surgindo e uma garrafa de vinho foi fácil de aparecer. Só um copo. Partilharam da mesma comida, deixando um pouco dela intocável, ambrosia não possuía aparência melhor. Beberam do vinho, contudo, o néctar dos deuses não correspondia ao sabor. E o cálice passando de mão em mão.
Dia horrível. Noite tediosa. Nenhuma aventura para afastar os ânimos ruins. Nenhuma diversão para a vida valer a pena. Restava apelar para os céus.  Enquanto a jovem cética se desfazia do rótulo da garrafa, o nome santo sendo arrancado com desdém, outra fazia um pedido com toda energia que o momento proporcionava. Risadas altas ecoaram no instante que deveria ser sublime. Ela pedia por distração, qualquer experiência que a fizesse sair do mundo monótono e sem luz. Ela implorou por aventura acusando com fúria o Olimpiano ingrato que a abandonou ao dissabor do tédio. “Adrenalina”. Repetiu com convicção. A prece foi feita.
Dos lados, alma viva nenhuma era capaz de se perceber. Inexplicavelmente tudo se resumiu aquele banco. O instante petrificou-se congelado. Ele apareceu. Ninguém sabe ao certo de que lugar. Sua entrada ao invés de triunfal, denunciante, foi sorrateira, não menos impactante. Pele morena, magro, estatura mediana, feições infantis, vestimentas normais. Superficialmente não havia nada de ostentoso, exceto o cabelo de fogo amarelo, escondido pelo capuz, e os olhos, personificação do ódio. Ele cruzou os braços e iniciou um diálogo. Nervoso, não, impaciente, falava coisas sem nexo algum, tentando procrastinar sua real intenção.
   As crianças, ora... crianças naquele momento, não se iludiram com o destino que lhes era esperado. Quando a voz Dele finalizou-se, o silêncio gritou vibrando, tremulando cada membro, se confundindo com os soares apressados dos corações palpitantes. Sim, adrenalina correu feito veneno pelo corpo.
Uma delas, não a descrente, a ousada, dissolveu o silêncio. Seu timbre controlado forçadamente quis saber o que Ele desejava. Após dar-lhe a informação pedida, calmamente, ela esperou que algo fosse feito. Nada aconteceu. Ela insistiu dessa vez ríspida em afastá-lo, perguntando-lhe novamente se existia algo mais. Ele parecia se decidir. Fúria tremeluzia no seu corpo pela insolência da pequena. O terror se alastrava entre as demais.
Novamente, como última tentativa, ela mandou-o embora para a surpresa de todos, até dela mesma. Aquela que fez a prece, não acreditou em tamanha ousadia e admirou a coragem da irmã, observando apenas o desfecho da aventura encomendada.                
  A paciência esgotou-se de ambos os lados. Elas se preparavam para ir embora, garrafa de vinho em mãos como forma sutil de fuga, quando o brilho da lâmina desembainhada ofuscou o caminho que tinham a intenção de seguir. Punhal, Faca, ou Espada. A prata reluzente chamava mais atenção do que a espécie do objeto. Sua posição, se para assustar, ou para atacar, fez das jovens estátuas de sal.  
 Ele se direcionou para pequena desafiadora, olhar fixado naquela que somente observava. A descrente, porém, tão mais próxima, não sofreu intimidação. Naquela hora, milhares de alternativas foram construídas e descartadas. O medo prolongado, arrastado dolorosamente, era a única certeza.
Um pequeno sorriso formou-se no canto da boca da criatura. O prazer do controle e submissão estampado. Regozijante sentimento de vitória.   As deusas fizeram-se mortais.
  Seus pertences foram tomados. A menina descrente não tinha nada de material. Mas perda maior foram as suas convicções. “Tudo estava acabado” pensaram já esperançosas. Como grand finalle Ele ordenou a entrega da garrafa para se servir de um gole. Garrafa entregue, levou-a a garganta, lábios no gargalo, o barulho do líquido a baixo reverberou na rua vazia e mesmo já a alguma distância seu gemido de satisfação foi ouvido. Após o longo gole, num movimento brusco de puro ódio, o tintinlar de mil estilhaços de vidro tocando ao chão foi escutado. Pequenos fragmentos brilhavam como diamantes naquele espaço sujo, a cor vívida do vinho derramado destacando no breu da noite.  Uma certa beleza podia ser vista. A impressão desse breve e significativo momento desviou a atenção das jovens, que após encararem o lugar deram-se conta apenas de uma rua vazia.
Correram sem olhar para trás, e ao chegar num local seguro abraçaram-se e choraram, exceto a cética que tentava tranqüilizar as irmãs.  
Da noite ficou a história. Do amanhecer as reflexões.  
C. Sarah


Dia das bruxas



Ainda é manhã. A ansiedade me faz ficar hiperativa. Tento me distrair com alguma coisa que possa está faltando. Mas que bobagem! Já está tudo pronto. Da janela eu vejo a madeira empilhada na clareira bem no meio da floresta, dará um belo fogo. Locke, meu gato, me faz cócegas nos pés passando sua calda preta pra lá e pra cá. Ele me olha persuasivamente, mesmo assim, não abro a porta. Ele corre chateado e vai se esconder no caldeirão. Fico a vagar dentro de casa, ligo a TV, abro a geladeira, bebo água, finjo que leio um livro, acendo a luz. Droga! Ainda é manhã. Penso em cozinhar algo, escuto um miado, olho para meu gato e para o caldeirão, penso novamente. Vai gato estúpido! Só não me volta depois do entardecer! Abro a porta e deixo o bichano sair. Sento na cama, deito na cama, pego no sono. Luzes. Muitas luzes: vermelho, laranja, amarelo. Azul? Verde? Talvez seja o sal e a lenha nova. Todas de mãos dadas dançam, cantam, clamam. Comida farta compõe a ceia, mas não existe fome, não, apenas dança. Escuto borbulhas e cheiro a fumaça que vem da caldeira fervente, devo ter chegado tarde, não escutei gemido de ninguém. O círculo gira, faz rodopio, faz caracol, a música fica lenta, baixa. Acordo. Vejo a janela e vibro. Já é noite. Visto a túnica, pego o livro, estou pronta pra ir, quando procuro Locke e verifico que ele ainda não voltou. Saio para buscá-lo. Locke?! Locke pequeno encrenqueiro apareça que eu juro não mais seus pêlos arrancar! A floresta é negra e o maldito gato se camufla bem. Chamo-lhe outros nomes, rogo-lhe algumas pragas, e nem com miado o bicho responde. Chego num carvalho velho, paro para descansar, e enxergo os olhos de Locke, dois pontos cor de mel incandescendo no galho mais alto. Subo na árvore, rasgo minha túnica, mas pego o gato, lhe seguro pelo rabo, desfiro-lhe uns tapas, afago seu pescocinho, dou-lhe um beijo entre as orelhas e fico feliz ao ver que ele também sentiu saudades. Ao entrar em casa, olho o relógio marcar meia noite, chuto o gato pra dentro e corro para me juntar a elas. Todas de mãos dadas sob a noite de lua, dançando e cantando em volta da lenha a queimar.

C. Sarah.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Linha Reta

Augusto saiu do trabalho mais cedo hoje, resolveu pegar uma estrada diferente e fazer compras no caminho para casa. Parou o carro em frente a um mercadinho de pequeno porte. Bem na entrada encontravam-se três senhoras muito enrugadas sentadas no chão batido. Elas perguntaram para Augusto se ele tinha alguma moeda, mas ele não possuia nenhum trocado no bolso. Ao sair da merceária Augusto procurou com os olhos por entre os pacotes as velhinhas, porém elas já haviam ído embora. Guardou as sacolas no banco da frente do carro e pegou a antiga rota de volta para casa. Distraidamente Augusto viu pela janela esquerda as três velhinhas paradas na beirada da rodovia. Uma delas esticava uma linha, outra preparava-se para cortá-la, enquanto sem entender nada Augusto avistava a terceira senhora atirar o que parecia ser uma moeda em sua direção. Nesse momento ele percebeu um caminhão vindo sem ter tempo para desviar. Pelo menos ele teria uma moeda para o barqueiro.

C.Sarah