Que tristes os caminhos, se não fora a mágica presença das estrelas.
( Mário Quintana)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O bosque (capítulo do livro " O sonho de sarah", interminado)


Eu estava no quintal de casa sentada á sombra de uma árvore alta. Havia em minhas mãos um livro, estava pronta para lê-lo, mas não compreendia o que continha ali. Símbolos e estranhos rabiscos em uma escrita particular. Tinha muita dificuldade em retirar o significado daquilo tudo. Meu cordão de rosa exalou um brilho fraco, levei a mão até ele e tudo começou a fazer sentido. Eu iniciava um rito com gestos e movimentos imprevisíveis ainda segurando o livro. Uma luz forte emergiu como um clarão dentro das sombras do bosque. Era um chamado que eu sentia a necessidade de seguir. Caminhei por entre as árvores e musgos que cresciam na terra úmida da floresta, já estava prestes a alcançar o lugar desejado, eu podia sentir a energia vibrando, me guiando.
Lá havia oito crianças vestidas igualmente de branco de mãos dadas, dispostas em um círculo, me aproximei lentamente e percebi que não se tratavam de crianças, eram mulheres com feições delicadas e infantis, todas incontestavelmente deslumbrantes e pálidas. Uma delas quebrou o círculo em um movimento para que eu me juntasse ao cenário. Eu peguei as mãos de Amélia e Lucy e voltei a fechar a corrente. Eu sabia o nome delas, elas eram de uma maneira estranhamente familiar pra mim. A energia passou por mim como eletricidade pura, percorrendo os meus braços e se dissipando por todo o meu corpo, a sensação de pequenos choques me atingindo era boa. Fechei os meus olhos e contemplei aquele momento místico, porém a escuridão chegou sem aviso ocupando cada feixe de luz que eu visualizava, me forçando a abrir os olhos. 
Quando fiz isso encontrei uma pessoa no centro do circulo vestida de forma diferente das mulheres que ali estavam. Arrepios escovaram as minhas costas.  Suas roupas eram extremamente normais, seu tamanho e corte de cabelo denunciavam se tratar de uma figura masculina. Ele estava ajoelhado com a cabeça voltada para baixo. Seu físico parecia ter sido um dia forte e musculoso diferentemente daquela circunstância onde a pele fina e escura se sobrepunha aos ossos visivelmente. Dor invadia aquela criatura. De repente, ouvi palavras sem sentido serem pronunciadas, e me dei conta de que o som também saía de mim. Que espécie de ritual era aquele? Um coro soou mais alto e o homem levantou sua cabeça.
Aquilo não poderia ser um homem, não um homem normal e vivo. Seu rosto mais parecia está entrando em decomposição instantânea. Então, eu reconheci aqueles olhos verdes cálidos e inebriantes. Não poderia ser a mesma pessoa. Eu só havia o visto uma vez e ainda o reconheceria em qualquer lugar. Olhos como aqueles nunca se esquecem. Mesmo assim, aquela outra figura da minha memória era saudável apesar de pálida, seu corpo parecia sólido e havia músculos fortes pelo modo como ele se movia, seus lábios eram vermelhos e convidativos e mesmo não tendo a oportunidade de ter visto, o seu sorriso prometia ser desconcertante. Essa criatura que se encontrava na minha frente sofrendo compulsivamente não possuía mais face, era um todo desconexo escurecido com buracos no que deveria ser sua boca, nariz e olhos, estes últimos sendo apagados cada vez mais. O homem se contorceu por mais um momento e o pó tomou o seu lugar.
Eu tentei me soltar das mulheres e caminhar na direção das cinzas, algo me prendia, uma força magnética incrivelmente poderosa. Eu tentei fugir para casa de onde eu havia saído, minha casa. Alguma coisa aconteceu no romper do círculo e vultos vestidos de negro povoaram a clareira. A roupa negra apenas contrastava com a pele branquíssima que se ressaltava a luz da lua cheia. Uma das figuras sombrias era o Pietro. Meu coração acelerou e eu corri o máximo que podia tendo um replay de uma noite assustadora. O caminho para minha casa estava maior do que o que eu havia percorrido quando atendi ao estranho chamado. Eu me encontrava perdida na escuridão do bosque, apenas sentindo que ele ainda estava me caçando com uma vontade incontrolável. Dessa vez, eu não teria escapatória. Meu pensamento vagou com essa definição de caçar e eu continuei correndo enquanto meditava. Eu tropecei em um tronco e dor jorrou da minha perna junto com um sangue vívido que sujava meu branco vestido, mesmo assim, eu não desisti da corrida. O pressentimento de que o que estava pra acontecer seria infinitamente pior do que aquele machucado me deu coragem para continuar. Algo ruim me atingiu mais forte e me lançou contra o chão enlameado. Aquela energia negra, malvada podia ser sentida com um toque, me fazendo tremer de medo, eu nunca havia sentido tanto a ânsia de me esconder. Ele me encarava com olhos inumanos sedentos por vingança e morte. Pietro não continha mais o aspecto sedutor da ultima vez, sua postura era a de um animal raivoso pronto para o ataque. Eu tentei me levantar e seus movimentos rápidos me nocautearam outra vez fazendo tiras no meu vestido longo e esvoaçante. Eu consegui me reerguer e levei a mão ao meu pescoço pronta para agir de alguma forma. As garras dele foram mais ágeis e agora o meu pulso sangrava também. Ele parecia comemorar interiormente cada corte e eu podia perceber a reação que lhe causava ver o fluido vermelho surgir. Meu corpo se configurava a personificação da dor, eu já estava bem próximo da inconsciência.  Algum movimento entre as trevas distraiu o monstro, eu não aproveitei para correr ficando apenas em silêncio extremo, minha mente era um nada tamanha a concentração que me apossava, levando a mão ao amuleto eu proferi uns versos. O poder me encontrou e o monstro se repeliu gritando de angústia e sofrimento. Ele cambaleou me atacando novamente apesar de parecer ter receio na aproximação, com a diminuição da velocidade dos seus movimentos eu tive tempo para arrancar um galho da árvore na qual eu fui arremessada, um carvalho talvez, estava muito escuro pra notar. Eu cravei a madeira em seu tronco, mas eu apenas imaginei ter feito isso, o demônio desapareceu.
Tudo estava acabado, eu já podia voltar para casa em segurança. Eu me certifiquei disso de uma forma inexplicável e dei as costas ao lugar onde sumiu o meu perseguidor. Um erro grave. Ele me envolveu em um abraço de correntes e as suas garras perfuram o meu estômago.

Um grito ecoou, mas era apenas uma prolongação de som na minha inconsciência.

Quando voltei a mim o garoto que eu esbarrei em Londres estava ao meu lado, um filho da noite, chorando pela minha morte.

C. Sarah

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