Que tristes os caminhos, se não fora a mágica presença das estrelas.
( Mário Quintana)

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Dia das bruxas



Ainda é manhã. A ansiedade me faz ficar hiperativa. Tento me distrair com alguma coisa que possa está faltando. Mas que bobagem! Já está tudo pronto. Da janela eu vejo a madeira empilhada na clareira bem no meio da floresta, dará um belo fogo. Locke, meu gato, me faz cócegas nos pés passando sua calda preta pra lá e pra cá. Ele me olha persuasivamente, mesmo assim, não abro a porta. Ele corre chateado e vai se esconder no caldeirão. Fico a vagar dentro de casa, ligo a TV, abro a geladeira, bebo água, finjo que leio um livro, acendo a luz. Droga! Ainda é manhã. Penso em cozinhar algo, escuto um miado, olho para meu gato e para o caldeirão, penso novamente. Vai gato estúpido! Só não me volta depois do entardecer! Abro a porta e deixo o bichano sair. Sento na cama, deito na cama, pego no sono. Luzes. Muitas luzes: vermelho, laranja, amarelo. Azul? Verde? Talvez seja o sal e a lenha nova. Todas de mãos dadas dançam, cantam, clamam. Comida farta compõe a ceia, mas não existe fome, não, apenas dança. Escuto borbulhas e cheiro a fumaça que vem da caldeira fervente, devo ter chegado tarde, não escutei gemido de ninguém. O círculo gira, faz rodopio, faz caracol, a música fica lenta, baixa. Acordo. Vejo a janela e vibro. Já é noite. Visto a túnica, pego o livro, estou pronta pra ir, quando procuro Locke e verifico que ele ainda não voltou. Saio para buscá-lo. Locke?! Locke pequeno encrenqueiro apareça que eu juro não mais seus pêlos arrancar! A floresta é negra e o maldito gato se camufla bem. Chamo-lhe outros nomes, rogo-lhe algumas pragas, e nem com miado o bicho responde. Chego num carvalho velho, paro para descansar, e enxergo os olhos de Locke, dois pontos cor de mel incandescendo no galho mais alto. Subo na árvore, rasgo minha túnica, mas pego o gato, lhe seguro pelo rabo, desfiro-lhe uns tapas, afago seu pescocinho, dou-lhe um beijo entre as orelhas e fico feliz ao ver que ele também sentiu saudades. Ao entrar em casa, olho o relógio marcar meia noite, chuto o gato pra dentro e corro para me juntar a elas. Todas de mãos dadas sob a noite de lua, dançando e cantando em volta da lenha a queimar.

C. Sarah.

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