Que tristes os caminhos, se não fora a mágica presença das estrelas.
( Mário Quintana)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Elmo de sangue

Fumaça no vale. Quietude. O grito de guerra ecoa presente na memória dos vencedores que andam por entre as pilhas humanas procurando os rostos amigos. Sobreviventes, mutilados, e mortos. Esses são os merecedores das condecorações de honra e glória atreladas ao campo de batalha. Recolhem o aço, nos braços o escudo, e pulam as poças. Olhai que nem houve chuva, apenas trovões. Mas tudo cessou. Nika! Nika!Vitória. A cavalaria se retira deixando pra trás a carnificina inimiga. Mais tarde os derrotados virão buscar seus mortos antes que as aves negras providenciem destino melhor. Sai o mensageiro a galope adiantado, reportará a notícia: Nika. A viagem é longa, os feridos são muitos, e alguns cravarão suas cruzes no caminho para casa. Outros, os velhos, beberão do vinho e ficarão para trás. Todos, porém, heróis, dignos soldados. Quanto mais maculada a morte, mais coragem e mais respeito. Decapitação. Honra. Espada no peito. Glória. Aproximada a caravana, as crianças se agitam e correm para avisar as mães, esposas e filhas que buscam as faces esperadas. É tão fácil enxergar o reconhecimento como, também, a dor abafada pelo sentimento de vitória, quando a perda é o seu real sentir. O elmo é entregue nas mãos da família, troféu sangrento do homem algoz que morreu vencedor.          

C. Sarah

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Relógio na ilha de Calypso



Tranças com fitas coloridas desenham o rostinho de menina moça de Sofia. Na cabeça dela sábios sofismas martelam as idéias que fluem para o coração quebrado porque Sofia se apaixonou. A pobrezinha precocemente sentiu o encanto e o desengano das hiperbolias que se reconhece no primeiro amor. A jovem Sofia maldiz o tempo e sofre com o medo de nada passar. Era tão doce, tão puro, eterno, e mesmo assim teve final. Não pra Sofia, que agora chora, soluça e declara que nunca mais virá a amar. Ela lembrara os dias atrás quando as horas injustas passavam num triz, e ao ver o relógio na sua frente, onde os ponteiros tão lentamente percorrem sua rota, se desespera.  O tempo é incerto, um dia, uma hora, quem sabe demora um pouco mais. Mas pra Sofia tudo é intenso, o tempo imenso e por acaso pareceu parar.      
 

C. Sarah

* Calypso ,segundo a mitologia, foi aprisionada na ilha de Ogygia por ficar contra o seu pai, Atlas. Lá o tempo era totalmente relativo. Semanas poderiam ser apenas um dia em outro lugar, ou o inverso. O castigo de Calypso era a solidão, mas ás vezes, passados uns mil anos, algum herói era mandado para que ela o ajudasse. Calipso lhe oferecia a imortalidade em troca da companhia eterna. Porém, nunca o herói aceitava a proposta de morar na ilha das horas incertas e ela sempre ficava sozinha chorando a desilusão.



quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

O Vestido azul


Ele toca sua pele tão delicadamente que a suavidade os faz parecer um só. Cai sob suas curvas apreciando o que há de mais belo e tentador. A pele nua e macia que fica aparente arranca suspiros, sugere delírios e a deixa com um ar de satisfação. Qualquer movimento simula uma dança e há sincronia em câmera lenta até que o mundo de repente pára. A mão escorre pela silhueta,textura sedosa, e o espelho reflete aquilo que os olhos sozinhos não captam. A face cálida e um pouco atrevida esboça um riso que sai bem contido pela beleza observada. Chegada a hora ela se vai trajando o vestido azul ,cor da noite, que é para com ele se perder na escuridão.


C. Sarah

Realidade


Bela com os cabelos reluzentes, prata da lua, deitava-se em seu leito escolhendo o cavaleiro dourado que iria povoar o sonho de hoje. Os cachos repousavam docemente no travesseiro, uma moldura emaranhada contornando o delicado rosto. Era assim todos dias, antes de dormir programava seus sonhos como quem escrevia o script para um grande espetáculo. E sonhava a noite toda. Um baile de gala, fantasias e cores preenchendo o salão, pierrô e colombina finalmente em harmonia.  Um palco, ela, a bailarina, ele amortecendo seu vôo com um movimento tão suave que mais parecia uma caricia. Às vezes um castelo, e porque não? Sempre luxo e príncipes acompanhados de cavalos alados, verdadeiros símbolos de um conto de fadas. Por isso não gostava do dia, já que eram as noites que lhe proporcionavam tamanho prazer e felicidade através de seus sonhos. Acordava extasiada com a aventura platônica e cada lembrança não vivida superava a outra. Certo dia, enquanto espreitava pela janela a monotonia do lado de fora do seu mundo, avistou a coisa mais linda que já vira no plano real. Borboletas dançavam no ar rumo ás flores silvestres que coloriam a paisagem, borboletas sugavam o néctar magistralmente como se fossem donas daquele espaço e, ao mesmo tempo, com tanto respeito que a menina quase podia ouvir um pedido de permissão, borboletas voavam soltas trazendo vida, mesmo que pela natureza suas vidas não suportassem mais que breves dias, às vezes nem isso. E assim dançando com as borboletas, borboleteando entre as flores, ela foi passar o seu dia. Com olhos fechados, não para sonhar, mas para sentir o calor, sentir o frescor da manhã envolvendo-a, beijando-a, deixava a luz arranhar o rosto frágil. Nem a tarde com seus tons pastéis, mais tristes, fez com que ela perdesse o interesse no cenário. Quando as borboletas se dispersaram, junto com as cores, a bela mulher se recolheu, e tão cansada pela sensação de maravilha que lhe invadia adormeceu sem planejar seu sonho. E sonhou com um mundo tão feio e sofrido que lhe doía a carne. Não eram as rosas, mas a fome que aflorava e corroia as crianças, pura miséria. Via mãe, irmãs e filhas em seus corpos expostos enquanto moedas de ouro eram jogadas a sua volta por homens que não se pareciam em nada com aqueles de sonhos atrás. Aflição e nojo lhe possuiu quando andou pelas ruelas imundas e escuras, seu corpo em contato com a sujeira se curvando contra o frio. Só música de ébrios em mistura aos gritos de agonia compunha a trilha sonora. Onde estavam os seus príncipes e os tapetes que protegeriam seus pés da imundice? De repente sentiu desespero querendo muito que aquele sonho chegasse ao fim, mas sabendo que ele ainda não havia atingido o esperado clímax. Andando em seu pesadelo pela cidade fantasmagórica se deparou com uma idosa, pele e osso, cujas mãos postas de uma forma específica, a fez pensar que a velha estava pedindo esmola, porém ouvindo um múrmuro baixo se envergonhou ao perceber a oração. Logo se deu conta que estava na casa da idosa e ao lado do pequeno altar que a mulher montara havia um bebê, e ao lado deste um caixão onde jazia um homem com uma faca no peito. A idosa agora chorava no velório do filho e a criança berrava pela falta de alimentação. Era tudo realidade. E Vagando pelas trevas da cidade via vilões, via ladrões, e choro, tristeza e morte. Apenas deu graças a Deus ao acordar, percebendo que tudo que sonhara era real demais, e que os seus castelos e seus príncipes não poderiam competir com aquilo. E viveu o dia e viveu a noite.       
                                                                                                                                           C.Sarah