Bela com os cabelos reluzentes, prata da lua, deitava-se em seu leito escolhendo o cavaleiro dourado que iria povoar o sonho de hoje. Os cachos repousavam docemente no travesseiro, uma moldura emaranhada contornando o delicado rosto. Era assim todos dias, antes de dormir programava seus sonhos como quem escrevia o script para um grande espetáculo. E sonhava a noite toda. Um baile de gala, fantasias e cores preenchendo o salão, pierrô e colombina finalmente em harmonia. Um palco, ela, a bailarina, ele amortecendo seu vôo com um movimento tão suave que mais parecia uma caricia. Às vezes um castelo, e porque não? Sempre luxo e príncipes acompanhados de cavalos alados, verdadeiros símbolos de um conto de fadas. Por isso não gostava do dia, já que eram as noites que lhe proporcionavam tamanho prazer e felicidade através de seus sonhos. Acordava extasiada com a aventura platônica e cada lembrança não vivida superava a outra. Certo dia, enquanto espreitava pela janela a monotonia do lado de fora do seu mundo, avistou a coisa mais linda que já vira no plano real. Borboletas dançavam no ar rumo ás flores silvestres que coloriam a paisagem, borboletas sugavam o néctar magistralmente como se fossem donas daquele espaço e, ao mesmo tempo, com tanto respeito que a menina quase podia ouvir um pedido de permissão, borboletas voavam soltas trazendo vida, mesmo que pela natureza suas vidas não suportassem mais que breves dias, às vezes nem isso. E assim dançando com as borboletas, borboleteando entre as flores, ela foi passar o seu dia. Com olhos fechados, não para sonhar, mas para sentir o calor, sentir o frescor da manhã envolvendo-a, beijando-a, deixava a luz arranhar o rosto frágil. Nem a tarde com seus tons pastéis, mais tristes, fez com que ela perdesse o interesse no cenário. Quando as borboletas se dispersaram, junto com as cores, a bela mulher se recolheu, e tão cansada pela sensação de maravilha que lhe invadia adormeceu sem planejar seu sonho. E sonhou com um mundo tão feio e sofrido que lhe doía a carne. Não eram as rosas, mas a fome que aflorava e corroia as crianças, pura miséria. Via mãe, irmãs e filhas em seus corpos expostos enquanto moedas de ouro eram jogadas a sua volta por homens que não se pareciam em nada com aqueles de sonhos atrás. Aflição e nojo lhe possuiu quando andou pelas ruelas imundas e escuras, seu corpo em contato com a sujeira se curvando contra o frio. Só música de ébrios em mistura aos gritos de agonia compunha a trilha sonora. Onde estavam os seus príncipes e os tapetes que protegeriam seus pés da imundice? De repente sentiu desespero querendo muito que aquele sonho chegasse ao fim, mas sabendo que ele ainda não havia atingido o esperado clímax. Andando em seu pesadelo pela cidade fantasmagórica se deparou com uma idosa, pele e osso, cujas mãos postas de uma forma específica, a fez pensar que a velha estava pedindo esmola, porém ouvindo um múrmuro baixo se envergonhou ao perceber a oração. Logo se deu conta que estava na casa da idosa e ao lado do pequeno altar que a mulher montara havia um bebê, e ao lado deste um caixão onde jazia um homem com uma faca no peito. A idosa agora chorava no velório do filho e a criança berrava pela falta de alimentação. Era tudo realidade. E Vagando pelas trevas da cidade via vilões, via ladrões, e choro, tristeza e morte. Apenas deu graças a Deus ao acordar, percebendo que tudo que sonhara era real demais, e que os seus castelos e seus príncipes não poderiam competir com aquilo. E viveu o dia e viveu a noite.
C.Sarah