Que tristes os caminhos, se não fora a mágica presença das estrelas.
( Mário Quintana)

sábado, 12 de março de 2011

Insônia


 Os olhos circulam; o quarto, a paisagem; o escuro emoldura; a parede, a imagem. O teto encara; o relógio percorre; a aurora trepida; e a insônia não passa. A cama inverte; o lençol embola; o corpo se vira; a mente não pára. O vento acaba; o travesseiro impede; a pele transpira; a nuca empapa. O colchão endurece; os cabelos revoltam; as pernas descruzam; o braço adormece. O estômago embrulha; o pijama incomoda; lá fora é manhã, e a insônia só cresce.

C. Sarah

quinta-feira, 10 de março de 2011

Desfecho

Tão lindas eram as rosas brancas que adornavam seus cabelos pálidos. Olhava-a como quem admira uma arte. Uma mão segurava a dela, a outra traçava a face alva circulando-lhe olhos, testando a maciez das maçãs, contornando-lhe os lábios com uma imensa saudade. As horas passaram, as pessoas passaram e cautelosamente observaram a contemplação ali exposta. Só quando as velas foram acesas, iluminando a moldura de madeira, que se deu conta da branquidão de sua pele, uma estátua de mármore repousando em veludo vermelho. Fria, como o mármore. Logo, chegara a noite e tudo naquele recinto parecia ser feito de gelo. Mais um figurão compareceu cumprindo seu dever social, nem se dera conta de quantos já haviam aparecido. Em porcelana fina era servido o café. Uma mão lhe afagou o ombro oferecendo-lhe o que beber, mas recusou sem retirar o olhar do cetim derramado na sua frente. As memórias vagarosamente foram lhe cercando, um sorriso marfim, um olhar falante, um andar bailarino, coisas que a pertenciam. Altivez, ela também tinha isso. A mente ficou perdida por breves instantes nas lembranças, o murmurinho de vozes o desconcentrou e aí percebera que os rostos que o encaravam agora já não eram os mesmos da manhã. Também notara algo mais, não havia visto uma criança sequer. Claro. Ninguém traria uma criança para presenciar o fim de um anjo. E foi se concentrando em detalhes que não vira desde que entrara no local. Símbolos sacros, a cruz dourada com Jesus Cristo pregado nela lhe chamou atenção, também havia coroas de rosas, faixas, e mais velas. Agora enxergara melhor as pessoas e foi odiando cada uma das faces. Odiando os olhares, odiando os pesares, odiando a presença. E num acesso de puro ódio expulsou a todos, atirou os arranjos, apagou as velas até restar somente a ele, a defunta e a escuridão. Ninguém lhe roubaria aquele momento. O breu foi consumindo o quarto e apenas um feixe vindo da janela aberta iluminava, clareando só o corpo deitado. Por vezes o vento adentrava e balançava a mortalha jogada numa cadeira, era o único movimento visto. O preto passou a cinza e a madrugada foi mais sombria do que a noite. A beleza já estava se esvaindo, a pele ficando arroxeada embaixo dos olhos, e assim como as flores ela parecia mais murcha. A dor apertou seu peito por saber que os vermes a tocariam e a terra a preencheria. Três batidas fracas soaram na porta, não era a morte que viera buscá-lo como pedira, era a hora dela partir. Pedira ao Deus Cristão que o levasse, pedira a tantos deuses, demandou até ao diabo e arrependeu-se na mesma hora. Não era para o inferno que ela iria, mesmo se ele existisse, ela não iria para nenhum lugar ruim. Caronte a daria o melhor lugar na barca. Hades jamais deixaria sua alma vagar nos campos da danação. Ela não esperaria no purgatório. Se tudo isso fosse verdade... Se ele pudesse trazê-la de volta... Se pudesse trocar sua vida pela dela... Mas o que lhe sobrou não foi vida, não suportaria a vida sem ela, e egoisticamente, não suportaria a vida dela sem a sua própria. Uma troca não seria o bastante. Queria ir com ela ao céu, queria ir com ela ao inferno. Queria-a, e só. Assim como os irmãos Castor e Polúx, desejaria a vida no Olímpo, e a suportaria no submundo, se junto dela estivesse, e ficaria satisfeito. A mortalha foi colocada, as alças douradas suspensas, duas fileiras de homens vestidos de preto a carregavam. Véus e mantos de graúnas acompanhavam o desfecho.  O caminho foi curto. O padre foi breve. Não houve choro, não houve discurso. Ele somente observou o movimento do caixão sendo abaixado na profundidade. E mesmo doendo-lhe segurou a pá e sujou a madeira branca esperando que a terra tomasse conta daquele corpo que um dia lhe pertencera.  

C. Sarah   
                                          

segunda-feira, 7 de março de 2011

Memórias de Ícaro



Minha prisão ficou pequena, construção extraordinária para mim não destinada. E que armadilha o destino teceu, a obra incorporou o artista. E eu acabei, também, por me tornar monumento desses becos escuros de saídas incertas, onde o céu, o teto, era o único escape. Mas agora que tenho um imenso azul sob meus pés, agora que aposto corrida com uma gaivota, deixo um rei enfurecido e essas lembranças para trás. Vou me misturando no alvo algodão e respiro mais forte um ar diferente. Eu sinto o vento pressionando meu corpo e de braços abertos o deixo abraçar-me. Outro azul preenche a minha volta e são tantas as formas tingidas de branco, me perco dançando buscando o calor do Sol infantil que brinca de esconder. Eu subo mais alto e tento encontrá-lo juntando-me a ele na brincadeira. Os sonhos que outrora havia eu sonhado parecem tão tolos nessa comparação. Um aviso me cerca: não posso ir tão longe ou minha armadura se desfará. Mas raios de sol, fios de ouro, prenderam-se a mim em força corrente puxando meu peso para acima das nuvens. Tudo era belo, prazeroso até, então o calor tornou-se intenso e a pele queimou contra a armação. Em um segundo não havia mais nada apenas o vento empurrando meu corpo, só que desta vez não tinha abraço nem amarras de fios pra me segurar. Eu fui despencando, cortando o azul, furando o algodão, tão livre do que jamais tivera em sonho. No peito um tambor rachava as costelas enquanto os meus membros agarravam o nada. Ao longe avistei os olhos do artista que me sustentavam mesmo sem poder. E eu desisti correndo para os braços daquele gigante de azuis infinitos para em suas águas meu sonho acabar. 


sexta-feira, 4 de março de 2011

Profecias de Cassandra



Apaixonado e não correspondido o Sol a amaldiçoou. O dom do prenúncio, oráculo acertado, se fez falácia quando nulo tornou-se o dom da persuasão. O Deus ressentido pelo amor regado lançou sobre Cassandra o descrédito que abalava a confiança tida em suas profecias. Dos seus lábios as palavras proferidas verdadeiras eram, mas se ouvidas jamais cridas. Infeliz foi o destino desta sorte, e assim o daqueles que não puseram fé nos presságios alertados. Tróia ruiu em tragédia lastimável. Páris, o irmão, o responsável. Agamenon foi avisado da tramóia organizada no intuito do seu fim, e como sempre, o resultado era esperado, o assassinato consumou-se pelas mãos da esposa infiel. Apolo, deus vingativo, fez em Cassandra terrível desgraça, ás vezes a verdade por todos desacreditada fere mais do que uma mentira tida verídica