Minha prisão ficou pequena, construção extraordinária para mim não destinada. E que armadilha o destino teceu, a obra incorporou o artista. E eu acabei, também, por me tornar monumento desses becos escuros de saídas incertas, onde o céu, o teto, era o único escape. Mas agora que tenho um imenso azul sob meus pés, agora que aposto corrida com uma gaivota, deixo um rei enfurecido e essas lembranças para trás. Vou me misturando no alvo algodão e respiro mais forte um ar diferente. Eu sinto o vento pressionando meu corpo e de braços abertos o deixo abraçar-me. Outro azul preenche a minha volta e são tantas as formas tingidas de branco, me perco dançando buscando o calor do Sol infantil que brinca de esconder. Eu subo mais alto e tento encontrá-lo juntando-me a ele na brincadeira. Os sonhos que outrora havia eu sonhado parecem tão tolos nessa comparação. Um aviso me cerca: não posso ir tão longe ou minha armadura se desfará. Mas raios de sol, fios de ouro, prenderam-se a mim em força corrente puxando meu peso para acima das nuvens. Tudo era belo, prazeroso até, então o calor tornou-se intenso e a pele queimou contra a armação. Em um segundo não havia mais nada apenas o vento empurrando meu corpo, só que desta vez não tinha abraço nem amarras de fios pra me segurar. Eu fui despencando, cortando o azul, furando o algodão, tão livre do que jamais tivera em sonho. No peito um tambor rachava as costelas enquanto os meus membros agarravam o nada. Ao longe avistei os olhos do artista que me sustentavam mesmo sem poder. E eu desisti correndo para os braços daquele gigante de azuis infinitos para em suas águas meu sonho acabar.
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