Elas cansaram do dia quando o sol forte se tornou cinza e fez a vida desanimar. Buscaram no anoitecer libertação. Estavam dispostas caçando algo para desaguar angústias e lamúrias de uma rotina traiçoeira. Encontraram-se ainda nas primeiras horas da noite escura e abafada, de estranhos ares. Enquanto caminhavam na procura, a lua nova sequer foi notada pelas três jovens que dela se banhavam.
Pessoas passavam e olhavam-nas com olhos curiosos e cheios de aviso pelas ruas vibrantes. O porquê nunca foi questionado, já que a ânsia, de ter saciado o desejo, não abria espaço para maiores observações.
“Iniciava-se mais uma reunião da Sociedade Secreta”
“Seleta”. Uma delas corrigia.
Foram ao encontro da música. A música não veio.
Bradaram por poesia. A poesia não chegou.
Clamaram por companhia. Convidados cruéis negaram-se a atender o chamado.
Entristeceram de repente e se conformaram sozinhas a fazer poesia e música fluir. A entorpecencia que a pouca bebida proporcionava não era suficiente, ainda assim, gargalhadas ouviram-se arrancadas em meio à viagem sem rumo. Eram risos de escárnio pela noite náufraga a que foram conduzidas.
Evocaram “Baco”, a outra face de “Dionísio”, o deus cultuado pela sociedade, inverossímil motivo para a reunião. Culparam-no pelo infortúnio. Zombaram da sua influência. Insatisfeitas, desafiaram o deus do Olimpo.
Não sentiam a intensidade das palavras proferidas. E naquela noite as palavras insistiam desfrutar de vida própria, lançadas sem o menor esforço. Escolheram o 7 como número cabalístico da fraternidade, a forma justa de estabelecer o elo entre a profana humanidade de pecados capitais. E mais gargalhadas soaram, soltas ao vento, como as palavras sem volta.
Havia uma descrente entre elas. Tão forte a sua sabedoria que seu modo mais eficaz para se manter segura foi manter-se também na ignorância. Ignorância calculada, frio escudo para a sensibilidade, alívio para a racionalidade.
As outras não. Pensavam saber além, mas sentiam mais do que o pensamento podia saber. Ah Presunção... armadilha previsível para o verdadeiro conhecimento. E todas brincaram como se deusas fossem por uma noite.
Decidiram retornar as suas habitações, mas não era tão tarde. Andaram nas ruas, divertiram-se desgostosamente, e no meio do caminho pararam para conseguir comida. Um banco esperava solitário na rua já sem movimento. Sentaram-se. A música foi surgindo e uma garrafa de vinho foi fácil de aparecer. Só um copo. Partilharam da mesma comida, deixando um pouco dela intocável, ambrosia não possuía aparência melhor. Beberam do vinho, contudo, o néctar dos deuses não correspondia ao sabor. E o cálice passando de mão em mão.
Dia horrível. Noite tediosa. Nenhuma aventura para afastar os ânimos ruins. Nenhuma diversão para a vida valer a pena. Restava apelar para os céus. Enquanto a jovem cética se desfazia do rótulo da garrafa, o nome santo sendo arrancado com desdém, outra fazia um pedido com toda energia que o momento proporcionava. Risadas altas ecoaram no instante que deveria ser sublime. Ela pedia por distração, qualquer experiência que a fizesse sair do mundo monótono e sem luz. Ela implorou por aventura acusando com fúria o Olimpiano ingrato que a abandonou ao dissabor do tédio. “Adrenalina”. Repetiu com convicção. A prece foi feita.
Dos lados, alma viva nenhuma era capaz de se perceber. Inexplicavelmente tudo se resumiu aquele banco. O instante petrificou-se congelado. Ele apareceu. Ninguém sabe ao certo de que lugar. Sua entrada ao invés de triunfal, denunciante, foi sorrateira, não menos impactante. Pele morena, magro, estatura mediana, feições infantis, vestimentas normais. Superficialmente não havia nada de ostentoso, exceto o cabelo de fogo amarelo, escondido pelo capuz, e os olhos, personificação do ódio. Ele cruzou os braços e iniciou um diálogo. Nervoso, não, impaciente, falava coisas sem nexo algum, tentando procrastinar sua real intenção.
As crianças, ora... crianças naquele momento, não se iludiram com o destino que lhes era esperado. Quando a voz Dele finalizou-se, o silêncio gritou vibrando, tremulando cada membro, se confundindo com os soares apressados dos corações palpitantes. Sim, adrenalina correu feito veneno pelo corpo.
Uma delas, não a descrente, a ousada, dissolveu o silêncio. Seu timbre controlado forçadamente quis saber o que Ele desejava. Após dar-lhe a informação pedida, calmamente, ela esperou que algo fosse feito. Nada aconteceu. Ela insistiu dessa vez ríspida em afastá-lo, perguntando-lhe novamente se existia algo mais. Ele parecia se decidir. Fúria tremeluzia no seu corpo pela insolência da pequena. O terror se alastrava entre as demais.
Novamente, como última tentativa, ela mandou-o embora para a surpresa de todos, até dela mesma. Aquela que fez a prece, não acreditou em tamanha ousadia e admirou a coragem da irmã, observando apenas o desfecho da aventura encomendada.
A paciência esgotou-se de ambos os lados. Elas se preparavam para ir embora, garrafa de vinho em mãos como forma sutil de fuga, quando o brilho da lâmina desembainhada ofuscou o caminho que tinham a intenção de seguir. Punhal, Faca, ou Espada. A prata reluzente chamava mais atenção do que a espécie do objeto. Sua posição, se para assustar, ou para atacar, fez das jovens estátuas de sal.
Ele se direcionou para pequena desafiadora, olhar fixado naquela que somente observava. A descrente, porém, tão mais próxima, não sofreu intimidação. Naquela hora, milhares de alternativas foram construídas e descartadas. O medo prolongado, arrastado dolorosamente, era a única certeza.
Um pequeno sorriso formou-se no canto da boca da criatura. O prazer do controle e submissão estampado. Regozijante sentimento de vitória. As deusas fizeram-se mortais.
Seus pertences foram tomados. A menina descrente não tinha nada de material. Mas perda maior foram as suas convicções. “Tudo estava acabado” pensaram já esperançosas. Como grand finalle Ele ordenou a entrega da garrafa para se servir de um gole. Garrafa entregue, levou-a a garganta, lábios no gargalo, o barulho do líquido a baixo reverberou na rua vazia e mesmo já a alguma distância seu gemido de satisfação foi ouvido. Após o longo gole, num movimento brusco de puro ódio, o tintinlar de mil estilhaços de vidro tocando ao chão foi escutado. Pequenos fragmentos brilhavam como diamantes naquele espaço sujo, a cor vívida do vinho derramado destacando no breu da noite. Uma certa beleza podia ser vista. A impressão desse breve e significativo momento desviou a atenção das jovens, que após encararem o lugar deram-se conta apenas de uma rua vazia.
Correram sem olhar para trás, e ao chegar num local seguro abraçaram-se e choraram, exceto a cética que tentava tranqüilizar as irmãs.
Da noite ficou a história. Do amanhecer as reflexões.
C. Sarah